Membro do Conselho Científico aborda questão ucraniana


Sob quaisquer ângulos das críticas que os principais países do Ocidente façam sobre a Rússia, uma boa dose é de preconceito e outra é discriminação. Nisto pode ser resumida a pressão que a Europa e os Estados Unidos fazem sobre as ações do governo de Vladimir Putin na Crimeia,tornando-a novamente parte do território russo, de acordo com o historiador, cientista político e membro do Conselho Científico do CENEGRI, Angelo Segrillo.


Putin desafia a ‘excepcionalidade’ de Obama e expõe paralelismos históricos

Na opinião do professor titular da USP, as lideranças ocidentais se vêem como as únicas a defenderem valores democráticos e acham que a Rússia está do “lado errado dessa questão”, mas não levam em conta as “circunstâncias esdrúxulas da deposição do presidente eleito Viktor Ianukovich” da Ucrânia. E, em grande medida, segundo sua posição, também tentam negar à Rússia o seu direito a reagir e a defender seus interesses.

 

Angelo Segrillo

A nova Rússia, a “equilibrista” política e social

Segrillo, que sempre manteve a tese de que a sociedade russa está dividida entre “ocidentalistas, eslavófilos e eurasianos”, inclusive aqui (A nova Rússia, a “equilibrista” política e social), é um dos poucos intelectuais brasileiros que entende e acompanha a complexidade do país e suas relações internacionais na transição da antiga URSS para o atual estado político.

Dono de uma vasta bibliografia sobre os temas – O declínio da URSS: um estudo de causas (Record), O fim da URSS e a nova Rússia (Vozes), Rússia e Brasil em transformação (7Letras), Os Russos (Contexto), Pequeno Dicionário Trilíngue de Gíria e Linguagem Coloquial – Inglês, Português e Russo (Muiraquitã) –, e frequente viajante a Moscou (lá também fez parte de sua pós-gradução), ele opinou sobre os diversos aspectos que se entrelaçam nessa crise internacional.

Sobre a posição da UE e dos EUA em relação à Rússia diante da crise ucraniana e a anexação da Crimeia.

Segrillo – Alguns governantes e ideólogos ocidentais realmente acreditam que defendem valores democráticos quando acusam unilateralmente a Rússia de ser o lado errado nesta questão. Outros sabem que isto, na verdade, é um certo preconceito – de que a Rússia está sempre do lado errado -, mas mantêm o discurso assim mesmo. Os dois grupos demonstram uma certa “má vontade” com a Rússia ao considerá-la herdeira de mentalidades soviética e imperial czarista. Em minha opinião, estas visões não levam em consideração as circunstâncias esdrúxulas da deposição do presidente eleito Viktor Ianukovich sem os processos normais e legais de impeachment com direito à defesa etc., que levaram a este episódio.

Sobre a influência desses grupos em muitos think tanks brasileiros e alguns meios da imprensa, que não aprovam a ação na Crimeia.

Segrillo – A grande imprensa brasileira geralmente trabalha a partir das agências de notícias ocidentais. Isso acaba levando à maior repercussão dos pontos de vistas ocidentais em nosso país.

Sobre a defesa do governo Putin de que a Crimeia é russa e que a maior parte da população é de russos e seus descendentes.

Segrillo – A questão da passagem da Crimeia à Ucrânia (em 1954 o então líder soviético Nikita Khruschev, que era de origem ucraniana, deu a região como presente) nunca foi bem digerida na Rússia, mas acho que se não tivesse havido a deposição do presidente ucraniano do jeito que foi a Rússia não teria feito a anexação daquela região.

Sobre a necessidade da Rússia de manter alguma barreira geopolítica e militar contra o avanço no Leste da UE e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Segrillo – Acho que esta é a resposta instintiva da Rússia ao avanço da Otan em sua direção. Ela tem lógica. Mas acho que esta situação toda só será resolvida quando acabarmos com esta concepção de alianças militares em tempos de paz, como essa que une praticamente toda a Europa e os EUA.

Sobre se a Rússia se sente “pequena” depois do desmantelamento da União Soviética e se o país não se sente respeitado pelo Ocidente.

Segrillo – Não, não acho que a Rússia tenha ou precise ter complexo de inferioridade em relação ao Ocidente. Mas, certamente, no momento atual, sente-se discriminada pelos países ocidentais do chamado primeiro mundo. E nem sempre a Rússia foi alvo de desrespeito. Houve momentos de grande prestígio da Rússia no Ocidente, quando, por exemplo, derrotou Napoleão ou quando a URSS ajudou a derrotar o nazismo. Nestas épocas a Rússia foi muito apreciada pelos governos ocidentais.

Sobre o silêncio oficial do governo brasileiro, que tem um acordo aeroespacial com a Ucrânia, onde já foram investidos milhões de dólares, e também é aliado da Rússia no BRICS, além de alinhamentos políticos em muitas questões internacionais.

Segrillo – Acho que a resposta atual do Brasil, em não se meter na questão, está correta. O Brasil não tem necessidade de comprar a briga de outros, principalmente em situações tão complicadas e contraditórias como essa.

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