Colunista CENEGRI, Ricardo Luigi: O mundo é naturalmente ruim?


O mundo é naturalmente ruim? Esse questionamento se aproxima muito da discussão filosófica sobre a natureza humana. Somos naturalmente bons ou maus? A sociedade é que nos corrompe? Essa discussão também encontra abrigo nas Relações Internacionais, no questionamento se é o mundo espelho do caráter humano ou se, como na bela canção “Timoneiro”, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola, “quem nos navega é o mar”.

A maioria dos autores de Relações Internacionais parte do princípio de que o mundo é naturalmente ruim ou naturalmente bom. Sendo o mundo ruim, tenderia à violência. Dessa forma, os Estados devem agir para conter essa violência, mesmo que para detê-la usem de mais violência.

Caso se parta do princípio de que o mundo é naturalmente bom, e a sociedade é que nos corrompeu, é preciso tomar medidas para diminuir essa violência generalizada. Para isso, os Estados devem cooperar, dialogar para alcançar a paz. É preciso difundir regras e direitos; respeitar crenças, tradições e acordos; compartilhar valores e objetivos comuns.

Esses eram os pilares, respectivamente, de realistas e idealistas, que, depois de diversos embates e avanços, chegaram à nomenclatura atual de neorrealistas e neoliberais. Entretanto, o artigo “A anarquia é o que Estados fazem dela”, de Alexander Wendt, publicado em 1992, sacudiu os pilares tradicionais dos estudos internacionalistas.

Wendt, um cientista político e filósofo alemão radicado nos Estados Unidos, analisa o mundo por um outro prisma em seu artigo seminal de 1992 e no livro posterior de 1999 Social Theory of International Politics (publicado este ano em português pela Apicuri Editora numa parceria com a PUC-RIO).

Para ele e seu “construtivismo”, o mundo será do jeito que os atores internacionais quiserem. O mundo é um jarro vazio. Se o enchermos de suco de laranja, será um jarro de suco de laranja. Se o enchermos de refrigerante, será um jarro de refrigerante. E assim subsequentemente.

De modo que o mundo não é naturalmente ruim, nem naturalmente bom. Nós somos a confusão. Assim como criamos as crises, somos dotados de capacidade para superá-las. Aprendamos com Wendt, o mundo é o que fazemos dele.

Há uma série de razões para ter esperança no progresso da humanidade. Vivemos uma época em que as pessoas têm expectativa e qualidade de vida nunca antes alcançadas. O nosso avanço tecnológico é assombroso. Quantas descobertas científicas nos conduzem a uma vida melhor? Por outro lado, temos a impressão de que avanços impressionantes convivem com atrasos imperdoáveis. Quantos ainda morrem de doenças facilmente curáveis? A desigualdade social no mundo cresce. Guerra e fome ainda são assuntos cotidianos.

A imagem do Freud Flinstone, sugerida pelo cantautor Humberto Gessinger, faz muito sentido. Conseguimos chegar ao nível de elaboração das interpretações de Freud sobre a psique, conquanto ainda nos comportemos muitas vezes como homens primitivos.

O mundo é coconstituído. Influenciamos o mundo e somos influenciados por ele simultaneamente. O mundo não é naturalmente ruim. Mas se não colaborarmos, nem artificialmente ele será bom.


 

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP) e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI) – ricardoluigi@cenegri.org.br

Publicado originalmente no jornal Correio Popular (Campinas-SP) em 05/10/2014.