CENEGRI Entrevista: A relação entre a crise institucional doméstica e a resistência dos países centrais à emergência de uma nova ordem internacional


Para debater as principais causas da crise institucional do Brasil na atualidade frente às incertezas geoeconômicas internacionais. a atuação política e econômica brasileira, o Prof. Vitor Stuart Gabriel de Pieri , doutor em Geografia (Geopolítica e Geoeconomia) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) foi entrevistado pela Profª. Fabiana de Oliveira,  mestre e doutoranda pelo Programa de Integração da América Latina (PROLAM-USP).

Fabiana: Quais são as principais causas do desemprego estar em alta no país?

Vitor: Temos acompanhado o aumento no índice de desemprego no país, causado principalmente pela brusca desaceleração da economia nacional. Esse tema perpassa por uma série de opções equivocadas do Governo atual que, contraditoriamente, aderiu a um modelo pautado na contenção inflacionária, por meio de manobras de políticas monetárias (aumento das taxas de juros e a consequente medidas austeridade), em detrimento dos incentivos econômicos através das políticas fiscais, especialmente por meio das medidas de transferência diretas (ex: bolsa família) e indiretas (ex: corte de determinados tributos para incentivar o consumo). Nesse sentido, o Governo tem optado pela agenda da oposição, poisao invés de continuar privilegiando a geração de emprego, o bem-estar social e até mesmo o aumento dos cofres da União – por meio de tributos gerados pelo movimento da economia doméstica – tem priorizado atender aos divergentes interesses do sistema financeiro, ou melhor, dizendo, capital improdutivo meramente especulativo.

Vitor: Portanto, podemos resumir que o desemprego em alta decorre da opção por um trágico modelo neoliberal, característico da década de 1990 e promessa de campanha do candidato da oposição, que privilegia as manobras de políticas monetárias em detrimento de um modelo pautado na perspectiva do Novo desenvolvimentismo, marca registrada da passagem de seu antecessor,Lula da Silva pela presidência, onde o Governo promovia intensamente a geração de emprego, através de medidas de transferência diretas e indiretas, focando no aumento do consumo das famílias e no consequente impacto positivo no setor de investimentos, principal gerador de empregos no país.

 

Vitor de Pieri

Vitor de Pieri

Fabiana: A pergunta que vem em mente é (…) esse cenário de desaquecimento da economia não deveria gerar um quadro de deflação a partir da projeção de um panorama de recessão – em função da queda do consumo das famílias?

Vitor: Para responder a essa pergunta, devemos discutir os principais processos geradores da inflação, que são:

  • A demanda maior do que a oferta: ocorre geralmente quando o ritmo de consumo das famílias é maior do que o de investimento das empresas, que sofrem constantemente com a falta de capacitação técnica, carência infraestrutural – em um país de dimensões continentais – e sobrecarga tributária, em grande parte desviada à geração de superávit primário para a garantia do pagamento da crescente e interminável dívida pública que aumenta em conformidade às taxas de juros estipuladas pelo Banco Central.
  • A desvalorização da moeda: pautada na variação das trocas monetárias, por meio da balança comercial do país e da balança de capital (fluxos financeiros meramente especulativos que estão atrás de taxas de juros e alertas às reservas monetárias do país para que cumpram com o pagamento dos exorbitantes lucros financeiros acordados). É válido denunciar também o papel das agências de classificação de risco criadas para a manutenção dos privilégios dos países centrais que financiam esse modelo.
  • A sazonalidade da produção: processo que recai principalmente nos produtos de gêneros alimentícios em razão da queda da produção decorrente das chamadas entressafras e/ou impactadas por fatores meteorológicos.
  • A percepção dos preços pelos consumidores: muito influenciada pelas constantes confusões mentais geradas pela grande mídia, financiada pelos bancos e por outros agentes financeiros. Eis um dos principais elementos promotores da inflação. O ciclo inflacionário torna-se incontrolável em um ambiente onde os “consumidores-população”, ocupados com temas como violência urbana e desmoralização da política, são bombardeados por notícias de aumento de preços, sempre associadas ao tema da desvalorização cambial, para forçar o Banco Central a manipular as taxas de juros e fazer com que o consumidor não seja crítico aos consequentes manejos monetários realizados.

Fabiana: Onde o governo erra?

Vitor: O Brasil está na contramão, entre a crise institucional e a subserviência ao sistema financeiro.O Governo erra na implementação de um modelo esquizofrênico de desenvolvimento pautado na contenção inflacionária, que possui como contrapartida a enorme queda na geração de empregos e um consequente cenário de recessão – três trimestres de queda no valor do Produto Interno Bruto (PIB).

 

“Brasil está na contramão, entre a crise institucional e a subserviência ao sistema financeiro”.

 

Vitor: Existem alguns fatorescomplicadores, como, a grande mídia financiada pelo setor financeiro, a composição parlamentar retrógrada e conservadora, a falta de entendimento da maioria da sociedade a ponto de não compreender os mecanismos de funcionamento da economia e a questão da governabilidade afetada pelo abalo na governança de uma gestão repleta de equívocos e contradições, que impactaram especialmente nos grupos que elegeram e davam base de sustentaçãoao Governo.

Fabiana: Existe a influência de fatores externos na crise doméstica?

Vitor: Certamente, o que se percebe é uma tentativa de ressurgimento de organismos supranacionais nos moldes do Fundo Monetário Internacional – financiado especialmente pelos países centrais – que apostam todas as suas energias no rompimento de uma nova ordem geoeconômica mundial apoiada nos fóruns de diálogos entre os países emergentes a exemplo dos BRICS que estão fundando um banco de fomento alternativo mais solidário e sensível às causas dos países em desenvolvimento.

Vitor: Outro tema que a agenda dos países centraistentam conter e de certa forma – extinguir por meio de criminosas intervenções internacionais silenciosas – são os Governos Antissistêmicos que não se apoiam no status quo da ordem econômica e política internacional e buscam uma inserção global mais soberana e independente.

Fabiana: Quais então os ajustes que devem ser feitos em prol do crescimento do país?

Vitor: Creio que se deve ajustar o modelo de desenvolvimento endógeno com o acertado modelo exógeno – pautado em uma inserção internacional altiva e assertiva – dialogando assim, com a perspectiva do novo desenvolvimentismo de origem Keynesiana, pois já está mais do que provado que o Neoliberalismo aliado ao paradigma americanista ideológico da Política Externa Brasileira, são sinônimos de pobreza, desigualdade, subserviência e humilhação de uma população que nasce, cresce e morre acreditando que o Brasil é o país do futuro!

email: fabianaoliveira@cenegri.org.br

email: vitorpieri@cenegri.org.br

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